Tradução: Entrevista completa de Billie Joe à Rolling Stone americana

A edição americana da revista Rolling Stone que traz uma entrevista exclusiva com Billie Joe Armstrong chega nas bancas dos Estados Unidos amanhã, mas nossa equipe já adianta a tradução completa que fizemos da matéria e entrevista. Foi a primeira vez que Billie Joe falou publicamente sobre os problemas que enfrentou e sua trajetória até o surto no I Heart Radio. Confira abaixo as scans e, em seguida, o texto traduzido.

A equipe da revista Rolling Stone sugeriu uma soundtrack para ser ouvida enquanto se lê a entrevista, que pode ser conferida aqui.

Agradecimento especial: scans da entrevista cedidas por Carolina Cardena!

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“Essa é a única entrevista que vou conceder sobre isso” diz Armstrong, sentando em um sofá no estúdio do Green Day, Jingletown, em Oakland. “Eu nunca quero ser o tipo de cara que fala sobre vício. A última coisa que eu quero é compreensão de quem quer que seja. Não quero uma festa por pena.”

Armstrong, guitarrista, vocalista e compositor de estrada do Green Day, está iniciando um segundo dia de conversa intensa e franca sobre os últimos 6 meses de sua vida: seu colapso violento durante o set do Green Day no I Heart Radio Music Festival em Las Vegas no último setembro; sua ida à reabilitação por alcoolismo e vício à medicamentos controlados; uma tour cancelada e o desastroso efeito nas vendas dos três novos álbuns do Green Day, UNO, DOS e TRÉ, e o teste severo de suas amizades de vida com o baixista Mike Dirnt e baterista Tré Cool.

“Eu não tenho revisto isso nem um pouco,” admite Armstrong, arrancando pedaços de um muffin de almoço. Há pausas frequentes e pensativas na conversa, como se ele ainda estivesse encontrando seu caminho para fora do problema. Há também uma impaciência saudável em sua voz enquanto ele reflete sobre sua agonia, o efeito em sua família – sua esposa, Adrienne, e seus filhos adolescentes, Joseph e Jacob – e seu futuro imediato. Green Day estará de volta à estrada em março, tocando em arenas na América do Norte, estádios europeus e festivais através do verão (europeu).
“Depois de nossa primeira entrevista, eu pensava ‘Falamos tanto em vício,’” diz Armstrong. “Estou me sentindo maior do que essa coisa, melhor do que essa merda. Isto é um incidente. Aconteceu. O restante é história. Tenho tantas coisas importantes a fazer. Tenho minha família para cuidar. Tenho minha banda. Sou uma pessoa de ideias loucas. Sempre serei. E isso ofuscará qualquer coisa com meus problemas de vício.”

Vestindo um chapéu porkpie, jeans pretos justos levemente rasgados no joelho e lápis preto-carvão, Armstrong, que fez 41 anos em 17 de fevereiro, ainda parece e se agita em seu assento como um garoto punk-rock, o duende furioso e articulado por trás dos maiores álbuns do Green Day: sua ruptura de 1994, Dookie, e sua granada operística em 2004, American Idiot. Mas o Armstrong que apareceu em Las Vegas em 21 de setembro para o show do I Heart Radio – parte de uma campanha promocional e de tour para os novos álbuns do Green Day – foi uma bagunça: tomando uma combinação descontrolada de pílulas para ansiedade e insônia, composta por uma longa história de forte bebedeira.

Nos bastidores antes do set do Green Day, “Eu o puxei para um lado,” lembra Dirnt, “e disse a ele ‘Cara, você precisa largar da bebida.” E no minuto que entrei no palco, eu pensei, “’Isso não vai ser bom.’ Somos conhecidos como uma banda bem firme. Ele não conseguia tocar guitarra.” Ao invés disso, Armstrong destruiu seu instrumento, depois de uma fulminação carregada de obscenidades contra o evento (promovido pelo Clear Channel) e contra o pequeno tempo para o set. Em 24 de setembro, Armstrong entrou em um programa de um mês de reabilitação externa.

“Muitas destas coisas remontavam ao 21st Century Breakdown (de 2009),” confessa Armstrong. “Houveram colapsos naquela tour que foram enormes.” Em um show de 2010 no Peru, durante um discurso inflamado contra tecnologia, Armstrong gritou, “Mal posso esperar para que Steve Jobs morra de um câncer.” Jobs faleceu um ano mais tarde. “Foi uma coisa bem estúpida,” diz Armstrong, se encolhendo. “Muita dessa merda estava acontecendo.”

Durante sua reabilitação, Armstrong somente tinha o que ele chama de “semicontato” com Dirnt e Cool. “Eu escrevia algumas cartas para ele e Adrienne explicando como eu me sentia, como eu estava preocupado e orgulhoso dele,” diz Dirnt, 40. Algum tempo depois, como Armstrong relata nesta entrevista, os dois amigos – que tem tocado música juntos desde que tinham 12 anos – inesperadamente se encontraram, para um café, em Oakland. “Billie se desculpou a mim do fundo do seu coração,” diz Dirnt. “Foi somente dois amigos em um banco de parque. Espero estar em um banco de parque com ele quando eu estiver velho, alimentando malditos pássaros e tendo conversas.”

Armstrong caracteriza sua dieta de recuperação como “meditação através de oração,” combinada com reuniões e bom senso sobre limites. “Vamos à esta tour tendo certeza que fazemos tudo o que podemos onde todos se sentem saudáveis, seguros e felizes,” diz ele. “Veremos o que acontece depois disso.” Ele começou a escrever novas músicas e menciona dois marcos iminentes em 2014: o 10º e 20º aniversários, respectivamente, de American Idiot e Dookie. “Há isso para se pensar,” ele aponta, rindo.

No fim de nossa segunda sessão, eu pergunto a Armstrong se ele deve mais desculpas: aos fãs de Green Day que viram ou leram sobre seu estouro em Las Vegas. “Eu os decepcionei,” ele responde sem rodeios. “O negócio em Vegas – alguns amam isso, alguns odeiam isso. Não vou reviver aquilo. Aquele é um lado de mim que eu não quero que meus fãs vejam novamente.
“Quero fazer bons shows,” ele declara. “Quero ser confiável. E nós planejamos ser confiáveis.”

Rolling Stone: Quando nos encontramos em junho passado, durante a mixagem dos novos álbuns, você parecia normal para mim – animado e energético. Como você realmente se sentia?
Billie Joe: Eu estava bem feliz, para ser honesto. Aquela foi uma das melhores épocas que tivemos fazendo um álbum. Foi um projeto grande e divertido com muita camaradagem. Então logo após mixarmos os álbuns, eu fiquei sabendo que minha tia havia falecido. Tive que voltar pra casa. Ajudei meu primo a pagar pelo funeral. Minha tia – irmã de minha mãe – era uma grande presença em minha família. Aquilo me atingiu bem forte.
Então comecei a ficar muito farto. Fazíamos entrevistas todos os dias. Também tinha a turnê. Nós estávamos pensando em outra turnê depois daquela, e em outra depois daquela. Eu estava cheio e cansado. Pensava, “Meu Deus, estou me sentindo assim e o [primeiro] disco nem sequer saiu ainda.”

Que drogas você estava usando?
Não quero dizer. Eram prescritas – para ansiedade e para dormir. Eu comecei a combiná-las de uma forma que não sabia mais o que estava tomando durante o dia e o que tomava à noite. Era a rotina. Minha mochila começou a soar como um chocalho de bebê. [Por causa dos frascos dentro]

Você bebia muito? Qual é a sua ideia de pesado?
Algumas pessoas podem sair, beber dois drinks, e podem continuar ou não. Eu não podia prever como iria terminar no fim da noite. Eu acordei no sofá de uma casa estranha. Não me lembro como. Foi um blackout total.
Venho tentando ficar sóbrio desde 1997, perto do lançamento do Nimrod. Mas eu não queria entrar em nenhum programa. As vezes, bêbado, você acha que pode conquistar o mundo todo sozinho. Esse foi o limite. Eu não tinha mais escolha.

Beber foi grande parte da imagem original do Green Day – três caras fazendo ótimos discos punk rock com algumas garrafas e uma caixinha de cerveja ao lado.

Ou fumando. Nós fumávamos muita maconha – vide o nome Green Day. Sempre bebemos muito. Nossas bandas favoritas bebiam. Por crescer próximo do [ club de Berkley sem fins lucrativos e sem álcool] Gilman Street, nós bebíamos atrás de moitas até que tivéssemos idade para entrar em bares.

Eu toquei muito bêbado no palco. Bebia de duas a seis cervejas e depois duas doses antes de subir no palco. Depois fazia o show e bebia o resto da noite no ônibus. Dormia, acordava no outro dia me sentindo uma merda, fazia a checagem de som… um dia atrás do outro. Dessa forma, eu estava funcionando com álcool.

Havia algum sinal de alerta no caminho para Las Vegas?
É engraçado, porque houve um incidente na Inglaterra. Nós estávamos fazendo alguns shows na Europa. Eu estava tomando muitos remédios na época, me medicando pra caralho, porque não conseguia dormir. Fomos para o Japão, Inglaterra, estávamos rodando em todos os lugares.
Uma noite, eu liguei para um amigo que estava no quarto ao lado e disse, “Vem aqui tomar um café.” Eram 7 da manhã, eu disse “Tomei tudo isso porque não conseguia dormir.” Conversa normal, como estamos falando agora. Logo depois, recebi uma mensagem de texto do meu empresário: “Desça agora, nós precisamos conversar sobre o Reading Festival.”

Eu desci, me sentei e ele disse, “Vamos pegar um avião, cancelar o resto da turnê e você vai para a reabilitação.” Eu respondi, “O que? Do que diabos você está falando? Não vou fazer isso!”
Falamos sobre isso mais tarde. Fomos ao local do show que faríamos em Londres. Eu disse, “Não quero cancelar esses shows. Isso não pode acontecer. Deixa eu dizer: assim que chegarmos em casa, depois que fizermos a parte de mídia e tudo mais, depois do iHeartRadio Festival, eu entro na rehab na semana seguinte. Mas não posso cancelar nada agora.”
Acabou que eu fiquei uma semana a frente do planejado.

Uma semana antes do incidente de Las Vegas, eu assisti ao show do Green Day no Iriving Plaza em Nova York. Foi um ótimo show. 40 músicas em quase 3 horas. Você também parecia estar fora de controle; Estava bebendo muito e eu me lembro de pensar: “Ele pode se perder aqui facilmente.”

Foi o nervosismo de Nova York. Eu bebi quatro ou cinco cervejas antes de começarmos e umas quatro ou cinco quando tocamos. Bebi tudo o que podia depois disso. Terminei de ressaca na West Side Highway, deitado em um parquinho.

Há muitos shows em que eu definitivamente ando naquela linha entre o que é controle e o que não é. Eu gosto desse sentimento – como se estivesse extremamente feliz. É como um um vôo – e perigo. Mas aquele show também foi o 30º aniversário da morte do meu pai [ Andrew Armstrong morreu de câncer em 1982, Billie Joe tinha 10 anos]. Isso pesou para mim. Nós terminamos o set com “wake me up when september ends” [escrita sobre o seu pai]. Foi uma noite muito intensa.

Mas em Las Vegas, você perdeu completamente o controle.
Assim que pousamos em Las Vegas eu estava de mal humor. Pra ser sincero, muito disso foi tentando fazer um setlist. Eu devia ter pensado nisso como um show para tv, não um normal. Eu estava pensando, “Como posso trazer a mentalidade e espiritualidade do show do Irving Plaza tocando depois do Usher?”. Eu não podia. Falei com a Adrienne. “O que você acha desse setlist?” Depois testei o Mike, “O que você acha do setlist?” Me lembro do sentimento de “Que porra estou fazendo aqui?”

Fiquei muito puto. Fui para um local onde o guitarrista Jason White estava bebendo vinho e almoçando. Estava tentando não beber, mas já estava cheio de muitas drogas. Eu disse, “estou pensando em beber um pouco de vinho.” Em algum momento eu [estala os dedos] desapareci. Tive um blackout.

Eu me lembro de poucas coisas – chegando ao local, nos bastidores, tentando me livrar dos zumbidos. Eu me lembro de ter visto o sinal de 15 minutos clicando embaixo. Click, Click, Click. Depois eu saí e enchi a cara o resto da noite. Na manhã seguinte, eu acordei. Eu perguntei à Adrienne, “o quão ruim foi?” ela disse, “Foi ruim.” Eu liguei pro meu empresário. Ele disse, “você está pegando um avião, voltando pra Oakland e indo pra uma reabilitação imediatamente.” Eu disse, “tudo bem.”

Quanto tempo você acha que deveriam tocar?
Eu ouvi 15 minutos. Pareceu a Adrienne que foi por meia hora. Nós normalmente tocamos por duas horas e meia, três horas. Eu mal transpiro em 15 minutos. Eu acho que tocamos poucas músicas e acabou.
Minha irmã Anna estava assistindo [na internet]. Ela ligou pra minha outra irmã e mãe, que estavam lá. Ela perguntava “o que está havendo?” minha mãe disse, “ele está bêbado!” [rindo timidamente]

Você tem alguma lembrança do que você fez ou disse no palco?
Não. As pessoas me lembrarão um pouco. Ou eu verei fotos. E isso me deixa muito mal. O que eu fiz ou disse – não é realmente o que me incomoda. É fato de aquilo não ser eu. Eu não sou aquela pessoa. Eu não quero ser daquele jeito.
Eu sou um bêbado que apaga. Isso é o que basicamente aconteceu. Algumas vezes as pessoas falarão sobre isso, e eu direi, “sim, sim.” Mas é como se fosse uma amnésia.

Você considerou assistir as imagens como parte da sua reabilitação?
Não. Não posso fazer isso. Aquela foi minha ultima bebedeira. O que é bom – foi documentado. Eu penso em beber todo momento, não posso pensar nisso.

O estrelato te dá o privilégio de dizer “não”. Por que você não rejeitou fazer o show quando o ofereceram?
Eu faria isso se eu estivesse mais são. A insanidade veio depois do álcool. Quando você olha pras coisas em um pedaço de papel, isso soa como, “Oh, isso são as 20 coisas que estamos fazendo.” Mas depois que você acaba em um lugar no qual você se sente completamente estranho.
Tocar sóbrio naquele show – talvez eu teria curtido. Mas as chances são de que eu não curtiria. Mas é importante pra esse tipo de música ser representada. Existem crianças lá, em algum lugar, que precisam dessa música e lição de história, e nós esperamos atingi-las. Se uma criança pega um CD do Green Day, há uma boa chance que ela pegue um CD do Ramones também. É bom ser a bola da vez, na era da música pop.”
“Nós tocamos coisas que pensamos depois, ‘Urgh, porque fizemos isso?’ Mas é parte da nossa ambição ao mesmo tempo. Fazer um musical da Broadway – nunca pensei nisso. Talvez eu pensei que o I Heart Radio…eu nem ao menos sei o que é, pra ser honesto. É um show de rádio pop que deu terrivelmente errado.

As consequências – incluindo muitos meses de shows cancelados e remarcados – atacaram as vendas dos seus três álbuns também. Não havia banda para promovê-los.
Isso era muito estranho. Passar por isso e ver o UNO! sendo lançado não era exatamente o que eu tinha em mente. Mas eu não penso nos 3 discos como uma falha. Mais importante, pra mim, é o espírito rock’n roll. Isso vem antes de qualquer coisa, do que isso vende ou acaba vendendo. Eu escuto 99 Revolutions [no TRE!] e penso que isso é uma das melhores coisas que eu já escrevi.”
“ Eu me lembro quando todos diziam quem Give ‘Em Enough Rope era um álbum em que o Clash se vendeu. Eu quero dizer, me dê um tempo! Existem tendências e tudo mais. Após o Dookie, quando nós fizemos o Insomniac, todos pensavam que a gente já era. A vida vai assim [faz com as mãos um sinal de onda]. Mas eu amo fazer álbuns. E eu vou continuar a fazer isso.

Seus filhos compram álbuns? Ou eles baixam:
Eles fazem aquela coisa do iTunes. Mas eu tive a melhor experiência com meu filho mais novo. Eu vi as coisas de uma nova maneira. Segui o lado antigo e disso ‘Ei, Jakob, você quer um toca discos?’ e ele diz ‘Claro!’ Ele ama Strokes, então eu peguei um disco dos Strokes e entrei em seu quarto. Ele coloca o LP, levanta a agulha e diz ‘Por onde eu começo? Os nomes das músicas estão aqui no meio das linhas?’ [Risos] Ele solta a agulha, e a música começa. [Risos] Isso foi demais. Ganhei o ano com essa.

Descreva sua primeira semana na rehabilitação, em casa.
Eu estava passando por abstinência. Aquilo era esquisito, deitando no banheiro e apenas sentindo…[pausa] Eu não percebi o quanto aquilo me afetou. E isso não é algo que passa de imediato na sua cabeça. Você volta desde o quanto tempo você usa. Era assim que estava sendo.”
“Estava passando por tanta merda. Até na segunda semana, eu estava tipo ‘Eu não pertenço à esse lugar. Não estou convencido’. A parte doentia disso é que eu queria tirar toda a medicação do meu corpo para poder beber. Mas essa é a insanidade do processo todo. Você cria desculpas. Você racionaliza. Você pode jogar merda no ventilado. Isso não significa que é a coisa certa a se fazer.

Você falou com Mike ou Tré enquanto estava na rehabilitação? Você sabia o que eles estavam sentindo?
Houve um semi-contato. Eu acho que Tre estava assustado. A vida se tornou realmente séria por um tempo. Mike estava puto pra caralho. Assim que voltei pra casa, depois do que aconteceu [em Las Vegas], ele disse todas essas coisas. Era tudo em 3 ou quatro frases. ‘Você está me assustando. Você está ferrando a sua vida. Você está ferrando a vida de todo mundo. Você precisa reunir as porcarias dos seus pedaços.’
A boa parte é que nós nos conhecemos há tanto tempo que nós podemos passar por isso sem explodir. Depois de umas 3 semanas e meia [na rehabilitação], eu comecei a ir nessa cafeteria para toma rum café. E então um dia lá vem o Mike, andando pela rua. Nós sentamos e tivemos uma boa conversa. Eu e Mike somos amigos há tanto tempo desde quando tínhamos 10 anos. As vezes o Green Day fica no caminho disso, porque estamos tão envolvidos.

O que foi difícil em sua esposa e filhos estarem em casa, assistindo você se desintoxicar?
Eu afastei isso dos meus filhos até que bem. Meus cachoros ficavam me olhando, imaginando como eu estava. Eles podem sentir as coisas. Eu poderia ter ido para uma clínica, mas da forma como estava eu poderia ficar próximo dos que eu amo. E minha esposa não bebe. Ela não gosta do sabor e do cheiro.

Ela foi sua enfermeira também?
Não. Eu tive uma enfermeira que ia para ter certeza que eu não estava tendo problemas e coisas assim. Mas Adrienne é uma mulher forte. Ela sabia o acordo. Eu tenho certeza que era duro para ela me ver passando por isso. Ao mesmo tempo, acho que é seguro dizer que ela teve que fazer algumas escolhas.

Como qual?
Eu serei chutado para a sarjeta ? Eu tenho certeza que esse pensamento passou por sua cabeça – que se eu não ficasse sóbrio, poderia perder todas as coisas. Eu poderia ter perdido a banda também. Não percebi o quanto destrutivo eu era. Eu pensei que todos estavam na piada. Mas eu era a piada.

As letras de UNO!, DOS! E TRÉ! Estão carregadas de referências a excessos perigosos e crises de meia idade. ‘Amy’ é sobre a cantora Amy Whinehouse. Você escreveu ‘X-Kid’ sobre um amigo que never descobriu como ser um punk de meia idade. Você estava conscientemente escrevendo essas músicas sobre você?”
Sim. O cara em ‘X-Kid’ morreu dos mesmos hábitos que eu tinha. UNO! É definitivamente o senso de ‘Seja jovem, seja livre’. O segundo album é a crise da meia idade: ‘Eu quero viver minha vida perigosamente, porque eu não vivi assim o suficiente ainda.’ E o terceiro disco é uma reflexão da realidade. Eu vivi essas etapas durante a minha vida toda desde os 17 anos.

Você estava sóbrio quando escreveu ‘Amy’?
Eu estava sobre forte medicação. Estava sóbrio, mas não estava claro. Vendo o que aconteceu com ela, algo meu levou até essa música. Eu não escrevo músicas sobre pessoas que morreram, com frequência. Eu acho que fiz três vezes: ‘X-Kid’, aquela sobre meu pai ‘Wake Me Up When September Ends’ e ‘Amy’.
De uma maneira estranha, eu quase desintoxiquei pela morte, porque aprendi sobre isso numa idade avançada. Eu tenho essa família que é muito mais velha do que eu sou, e eu tenho muitos amigos que cometeram suicídio, que se envolveram em acidentes de carros bêbados, se acabaram. Então a morte sempre esteve na minha vida. [pausa, e ri] Isso soa realmente engraçado.
Mas se você olhar pra trás, eu escrevo sobre vício desde sempre. Tem esse outro lado de mim indo ‘Eu disse à você que essa merda ia acontecer. Você não levou essa porra a sério.’

Você pode citar exemplos de quando estava sendo mais autobiográfico do que as pessoas imaginam?
’Hitchin’ a Ride’ é uma. ‘Lazy Bones’, do DOS! – essa música me faz arrepiar, só de pensar nisso. ‘Little Boy Named Train’ – essa música é tão eu. É sobre estar perdido. Quando eu era uma criança, eu sempre iria me perder sem saber onde estava. Ou me perderia nos pensamentos.

Tré uma vez descreveu você como ‘abençoado e atormentado’ – que seu cérebro é como 18 fitas de gravação rodando ao mesmo tempo em um circulo. Esse tipo se superestimulação significa que você pode escrever três álbuns ao mesmo tempo, realmente rápido.
Isso também quis dizer que eu poderia ser um idiota do humor, e um acidente de trem de um bêbado. Foi por isso que usei drogas: para poder fazer isso parar. Agora preciso encontrar uma nova maneira de terminar.

Você foi clinicamente diagnosticado com insônia? Você chamou um dos seus álbuns de Insomniac.
Eu nunca fui diagnosticado. Tudo que sei é que não posso dormir muito bem à noite. Levo um tempo pra conseguir dormir. Eu posso apenas ser um noturno. Eu tenho minha vida noturna, escutando discos ou assistindo TV. Essa foi a parte difícil de ter filhos: tentando entrar no ritmo deles, e então lutar para dormir enquanto eles dormiam.

Existe alguma história de alcoolismo na sua família?
Eu realmente não quero dizer. [longa pausa] Eu só vou dizer que eu cresci numa casa de amor e caos. Eu lembro de ver isso. Sabia que estava lá. Mas em algum ponto, eu parei de tentar me importar com isso.

Como você descreveria seu antigo modo de vida punk-rock, quando você e Tré estavam morando juntos na casa na Avenida Ashby em Berkeley?
Morávamos com uma banda chamada “East Bay Weed Company” (risadas). Então era muita cerveja e fumar maconha.

Quanto tempo você conseguia passar escrevendo e tocando música?
Isso era o tempo todo. Pelo menos metade do Dookie foi feito lá. Mike morava rua abaixo; nós nos encontrávamos duas ou três vezes por semana. Então havia sempre muito improviso rolando.

Havia muito niilismo acontecendo. Jovens que abandonaram a escola, pessoas que se sentiam excluídas – eles estavam vindo à esta cena. Coisas como autoflagelo, tatuagens ruins, beber álcool, cheirar metanfetamina – ninguém pensava nisso como comportamento de viciado. Sabíamos que todos estavam fazendo aquilo. E nós estávamos fazendo isso também.

Estávamos na casa de alguém onde bandas estavam tocando. Alguém tinha anfetamina, e nós usávamos. Então eu começava a escrever quando chegava em casa. Não era uma necessidade. A música já estava lá. A coragem era o que eu precisava. O medo sempre estava lá, mesmo quando estávamos fazendo o American Idiot.

Do que você tinha medo?
Eu tinha esta voz na minha cabeça: “Quem você pensa que é? Por que você escreveu uma música como ‘Holiday’, seu fugido da escola?” Eu acho que a parte proletária de mim vem à tona. Às vezes as pessoas que tem as bocas mais barulhentas são de classe alta, média alta. Os mais quietos são frequentemente pessoas da classe proletária, pessoas que são sem dinheiro. Há um medo de perder aquilo que você tem. Eu venho dessa origem.

De fato, American Idiot é o álbum mais sincero e relevante que vocês já fizeram.
Este era outro medo. Se eu não digo isso agora, quando tenho 31 anos de idade, quando vou dizer isso? É algo que eu tinha que fazer. Se eu mereço meu pagamento, então tenho que dizer isso.

Dookie saiu no mesmo ano em que Kurt Cobain Faleceu. Eddie Vedder do Pearl Jam estava se debatendo com sua celebridade, e Scott Weiland do Stone Temple Pilots estava batalhando com o vício. Como você lidou com o sucesso repentino?
Viemos de uma origem tão punk-rock – “rock star” era uma palavra de quatro letras (fuck). Era uma época difícil. Depois, eu estava, “Cara, eu aproveitei aquilo? Eu ao mínimo estava lá?” Eu adotava assistir as multidões ficando maiores e maiores, o ânimo das pessoas cantando cada palavra. Mas nós tínhamos a resposta negativa pior do que todas aquelas outras bandas juntas. Eu realmente acredito nisso. Vindo de Gilman Street e da época de bandas “Maximum Rock N Roll”, o que era basicamente uma mentalidade socialista, o que nós fizemos foi blasfêmia descarada: tornarmos rock stars.

Quando você finalmente ficou confortável com seu estrelato?
Perto de Insomniac, eu tinha medo de caminhar pelo palco. Se eu iria caminhar para alguma parte da plateia, significava que eu estava sendo um cuzão (risadas). Eu estava bem autoconsciente. Então durante Nimrod, minha bebedeira aumentou. Eu estava, “Foda-se, vou realmente entrar na onda.” Comecei levantando minhas mãos, fazendo as pessoas baterem palmas. Percebi que era isso que as pessoas queriam. Elas querem se divertir, e é tudo bem ser um criador de confusão.

Tudo aquilo foi crescendo até American Idiot. Levei até que tivesse 32 anos para realmente falar por mim mesmo e fazer isso com confiança.

Parece irônico agora que o álcool ajudou?
É. Não consigo lembrar o lugar, mas estávamos tocando em Austin, Texas. Era para 2000 pessoas. Eu estava nervoso. Foi então que decidi começar a beber antes de shows. Começou com duas cervejas. Aí cresceu para muito mais depois disso. Coragem líquida – fazia me soltar e não dar a mínima.

Como uma jovem punk-rock, qual era sua opinião nas estrelas originais do rock que caíram –Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison? Você se identificava com os excessos e inseguranças – ou considerava isso fraqueza?

Eu adorava The Doors. Acho que Jim Morrison é o primeiro rock star real. São pessoas como Little Richard, que estava fazendo a coisa exibicionista. Mas Morrison levava isso a outro nível, sendo um poeta, elegantemente acabado. Ficando assim detonado, que ele estava tentando alcançar uma nova consciência. Ele era um Charles Bukowski cantando.

Mas é um lugar perigoso. Quando eu escuto aqueles álbuns do The Doors, me faz querer me detonar. Especialmente uma música como “Roadhouse Blues” – “Acordei esta manhã, peguei uma cerveja.” É o “foda-se” máximo à sociedade, a qualquer tipo de vida convencional. E você está fazendo isso através do alcoolismo. Há momentos em que eu vivi por estas palavras – e quase morri por elas.

Você começou a escrever músicas novamente?
Escrevo riffs de guitarra. Eu crio melodias em minha cabeça e escrevo aqui (pega seu iPhone) e mantenho um pequeno registro. Vamos ver… (toca na tecla de seu iPhone. Um riff com ruídos acústico toca no pequeno auto falante.) Coisas como isso. Eu sempre escrevo letras.

Você pode notar uma diferença no que você escreve, por causa de sua experiência recente? Há um álbum de reabilitação sendo criado?
É muito cedo. Acho que tenho que esperar de fora por essa. Não quero entrar de cabeça e me sentir esgotado pelo sentimento.

Eu só consigo levar uma música de cada vez. Eu só quero escrever boas músicas que as pessoas amem, o que é uma coisa difícil de fazer. Seria ótimo fazer outra ópera rock, mas usando mais tecnologia antiga. Eu adoro álbuns com sons ruins (sorrindo). Adoraria fazer mais coisas com Green Day que é 100% ao vivo. Às vezes eu queria que tivéssemos gravados nossos últimos álbuns desta maneira – aquele sentimento “Exile on Main Street” (The Rolling Stones, 1972), onde você só pega uns bons sons e vai.

Uma coisa que não consigo fazer é fazer qualquer coisa mal planejada. Quero ter certeza de que tudo está certo, que a música está completamente finalizada. Acho que o primeiro álbum do Ramones e o primeiro álbum do The Clash – aquelas músicas estavam completamente finalizadas, bem tocadas. Você quase consegue ouvi-los tocando-as em uma sala de ensaio. Você pode perceber como o tempo continua, quando adianta para Sandinista! (The Clash) você sabe que tudo aquilo foi feito em estúdio.

Na verdade o primeiro álbum do The Clash foi produzido pelo engenheiro de som ao vivo deles.
Sim! É um álbum brilhante. Eu quero ter certeza de que quando estamos evoluindo, nós ainda soamos como uma unidade.

Então você pode se antever fazendo isso – estando no Green Day – aos 50 anos.
Sim.

Aos 60?
Ah, sim! Continue!

Você tem The Rolling Stones como um exemplo a seguir para isso agora.
A coisa ótima dos Stones é que eles se tornaram velhos caras do blues. Vê-los naquele show de 12/12/12 – eles fizeram todos “estourarem” no palco. Eles foram tão inspiradores. E ver todo aquele cabelo branco que Keith Richards tem agora… (risos).

Vocês estarão de volta à estrada logo. Você, Mike e Tré pensaram em novas regras e mudanças – como nada de álcool nos bastidores – para manter a sobriedade?

Ainda temos que falar sobre isso. Todos sabem que está vindo – o que vai me impedir de voltar a beber, onde todos estão felizes ao mesmo tempo.

Às vezes não tenho certeza se estou pronto. Há ainda a obsessão por álcool. Há também noites sem dormir. Mas eu tenho que trabalhar nisso todo dia. Porque sei o que acontece por aí. Estou dando uma festa para esta festa gigante para pessoas. Pelo menos 70-75% das pessoas na plateia tem estado bebendo. Preciso cuidar onde piso.

A próxima vez que você quiser uma bebida, o que você beberá ao invés disso?
Provavelmente vou correr pra fora, chamar um táxi, voltar para meu quarto de hotel e beber um refrigerante. Provavelmente uma root beer (“cerveja” doce e sem álcool). Eu adoro root beer.

Tradução feita pela equipe GDE: Bruno, Carol, Adriano e Jeize (Texto da entrevista em inglês)


 
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    #_# Billiee…

  • Vinicius Duarte

    Tinha lido essa reportagem um tempo atrás, mas nao comentei, cara…
    Muito foda essa entrevista, não há fã que nao se sinta emocionado ou algo assim ao ler, sei lá, pelo menos comigo mexeu bastante!
    Enfim, parabéns a equipe Green Day Eulogy, excelente post, e obrigado, claro.

  • Jackson

    Cara Billie Joe é muuuuito fodaaa, queremos mais 1000 anos de Green day. m/ m/